O próximo salto dos pagamentos no Brasil não será digital. Será automático.
Na semana passada tivemos o prazer de receber quase cinquenta executivos de diferentes setores em um almoço no Baleia Rooftop, em São Paulo. Foi um desses encontros em que as conversas continuam na cabeça muito depois que as pessoas vão embora.
A ideia era simples: reunir perspectivas complementares sobre um tema que raramente é discutido com a profundidade que merece. Como o cenário econômico, o comportamento financeiro das pessoas e a infraestrutura de pagamentos se conectam, e o que isso significa para quem opera modelos de receita recorrente no Brasil.
Para isso, contamos com a participação de Joaquim Levy, ex-ministro da Fazenda e uma das referências mais sólidas quando o assunto é análise econômica no país. Tivemos também a contribuição de Eduardo Yuki, Superintendente Executivo de Macroeconomia do Banco Safra, que trouxe uma leitura detalhada do momento econômico global e doméstico. E o Matheus Magnum, do PiniOn, apresentou os resultados de um estudo nacional inédito que lançamos sobre o comportamento financeiro do brasileiro em 2026 em parceria com eles.
A combinação dessas três perspectivas gerou uma conversa densa, com dados concretos e reflexões que achei importante registrar aqui.

O cenário macroeconômico e seus impactos nos negócios
A conversa começou com Eduardo Yuki, do Banco Safra, que apresentou uma leitura estruturada do momento econômico global e de como essas forças têm influenciado decisões de investimento, crédito e crescimento das empresas no Brasil.
O primeiro ponto abordado foi o ambiente internacional. Segundo Yuki, o cenário externo segue marcado por incertezas relevantes, especialmente em torno de cadeias energéticas, política monetária nas economias desenvolvidas e dinâmica inflacionária ainda não resolvida.
Um dos exemplos centrais da apresentação foi o mercado de petróleo. Nos últimos meses, houve aumento relevante de oferta global, com destaque para países como Arábia Saudita, Brasil, Rússia, Estados Unidos e Cazaquistão, que ampliaram produção no período. Isso cria uma pressão baixista sobre preços.
Só que esse movimento acontece ao mesmo tempo em que tensões geopolíticas continuam gerando volatilidade. O Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela expressiva do petróleo transportado globalmente, segue sendo uma variável de risco que nenhum modelo ignora.
Como Yuki explicou durante a apresentação: "Hoje qualquer cenário macro precisa considerar o que acontece com energia, especialmente petróleo. Dependendo do patamar de preço, o impacto na inflação muda rapidamente."
Esse ponto tem implicações diretas sobre a política monetária ao redor do mundo. O exemplo mais claro é o dos Estados Unidos. Mesmo com a inflação americana mostrando sinais de desaceleração em relação aos picos recentes, o Federal Reserve tem adotado postura cautelosa. Se petróleo e tarifas de importação voltarem a pressionar preços, o espaço para cortes de juros fica menor. E com juros americanos mais altos por mais tempo, o ambiente global para emergentes como o Brasil tende a ser mais seletivo em termos de capital e mais exigente em termos de disciplina fiscal.
Ao trazer a análise para o contexto brasileiro, Yuki destacou que o país tem mostrado relativa resiliência. A balança comercial segue robusta, a produção de petróleo está em alta e o investimento direto continua dando sustentação às contas externas. Em outras palavras, o problema principal do Brasil não é externo.
O ponto de atenção está na dinâmica fiscal. O Superintendente do Safra foi claro: a sustentabilidade do arcabouço fiscal depende de contenção real de despesas, não apenas de discurso. Sem ajuste estrutural, a credibilidade fiscal continua limitada, e isso afeta juros, câmbio e expectativas.
Ainda assim, o cenário doméstico traz uma notícia que o mercado acompanha com atenção. A atividade econômica está desacelerando. Crédito, consumo e mercado de trabalho mostram sinais de perda de força. Esse arrefecimento, combinado com custos de produção menos pressionados, cria condições para que a inflação continue caindo em 2026. E se esse movimento se consolidar, pode abrir espaço para redução gradual da Selic ao longo do ano, o que beneficia especialmente os setores mais sensíveis ao custo do crédito.
Como destacou Yuki ao final da sua análise:
"Em um cenário macro mais desafiador, eficiência deixa de ser apenas uma vantagem competitiva e passa a ser uma necessidade."
Essa frase foi, para mim, o melhor gancho para a segunda parte do encontro.
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O que os dados revelam sobre o comportamento financeiro do brasileiro
Na sequência, o Matheus Magnus, Head de Sales do PiniOn, apresentou o estudo que desenvolvemos em parceria com eles: "A Jornada do Pagador Brasileiro". A pesquisa foi conduzida em fevereiro de 2026 com 1.526 respondentes distribuídos por todos os estados do Brasil, em diferentes faixas etárias e classes sociais.
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Queríamos validar três hipóteses que observamos no dia a dia ao trabalhar com empresas que operam pagamentos recorrentes. Primeiro, se o Brasil está financeiramente pressionado. Segundo, se parte da inadimplência é operacional, não apenas falta de dinheiro. Terceiro, se existe abertura real para automação, mas com barreiras comportamentais que precisam ser endereçadas.
As três hipóteses se confirmaram.
O Brasil está financeiramente apertado.
61,8% dos respondentes declararam ter mais de 50% da renda comprometida com despesas fixas mensais. Dentro desse grupo, 17,7% comprometem mais de 90% da renda. A margem de erro financeira é pequena. Qualquer falha operacional no processo de pagamento, um esquecimento, uma cobrança mal comunicada, um reintento sem aviso, gera impacto imediato no orçamento de quem já está no limite.
Isso não é só um dado de comportamento do consumidor. É informação estratégica para qualquer empresa que opera com receita recorrente. Em um cenário de orçamento apertado, a forma como a cobrança é estruturada influencia diretamente a probabilidade de pagamento no prazo.

Metade dos brasileiros pagou multa por atraso no último ano.
50,8% dos respondentes afirmaram ter pago juros ou multa por atraso em alguma conta nos últimos 12 meses. Esse dado é mais revelador do que parece à primeira vista. Estamos falando de metade da população economicamente ativa, não de uma minoria.
E aqui está o ponto que mais nos chamou atenção: quando perguntados sobre os motivos do atraso, apenas uma parte aponta falta de saldo. Aproximadamente um terço dos atrasos envolve esquecimento, desorganização ou problema no meio de pagamento. Ou seja, parte relevante da inadimplência não está ligada à incapacidade de pagar. Está ligada à fricção no processo.
Esse é um ponto que discutimos frequentemente com nossos clientes. Existe uma camada significativa de inadimplência involuntária no Brasil. E inadimplência involuntária não se resolve com cobrança mais agressiva. Resolve-se com infraestrutura melhor, lembretes inteligentes e reintentos estruturados.

A barreira do Pix Automático não é tecnológica. É psicológica.
81% dos brasileiros já ouviram falar em Pix Automático. Desses, 26,6% já utilizaram. O desafio, portanto, não é awareness. O mercado já sabe que a solução existe.
A barreira real aparece em outro dado: 44,8% afirmam preferir controlar manualmente seus pagamentos. Não é rejeição à tecnologia. É receio de perder controle sobre o próprio orçamento.
Esse dado tem uma implicação prática muito clara para nós. A automação, para ser adotada em escala, precisa ser comunicada como ampliação de controle, não como substituição dele. Quando a pergunta muda e inclui transparência, notificação prévia e cancelamento simples, a disposição para usar Pix Automático sobe para 81%.
O problema não é o modelo automático em si. É a automação mal desenhada, sem governança, sem comunicação, sem visibilidade para quem está pagando.

Pagamento mal estruturado impacta aquisição e retenção.
Dois dados da pesquisa me pareceram especialmente relevantes para o debate com os executivos presentes no evento. Primeiro: 52,8% dos brasileiros já deixaram de contratar algo para evitar lidar com pagamento recorrente. Segundo: 48,6% já cancelaram um serviço porque era complicado pagar.
Isso significa que o problema não começa na cobrança. Começa antes, na decisão de contratar. E não termina no atraso. Termina no churn. Pagamento é parte da experiência do produto, queiramos ou não.
A próxima etapa da evolução dos pagamentos no Brasil
O Brasil construiu uma das infraestruturas de pagamentos mais avançadas do mundo com o Pix. Em poucos anos, transferências que antes dependiam de horários bancários e processamento manual se tornaram instantâneas, gratuitas e disponíveis 24 horas.
Mas os dados da pesquisa mostram algo que ficou claro para todos no evento: digitalização não é o mesmo que automação. 51,7% dos brasileiros usam Pix manual como principal meio de pagamento de contas mensais. O comportamento é digital. Mas ainda exige ação manual todo mês. E toda ação manual é um ponto de fricção, um momento de risco para esquecimento, atraso e multa.
O próximo passo é a automação estruturada dessa jornada. E os dados mostram que o mercado está mais pronto para isso do que a taxa de adoção atual sugere. 74,9% dos brasileiros acreditam que o futuro dos pagamentos será automático ou híbrido. Empresas que estruturarem essa transição agora estarão alinhadas ao movimento, não correndo atrás dele.
Para o setor imobiliário, que estava bem representado no evento, os dados são ainda mais específicos. Entre respondentes que possuem financiamento, 51,9% já atrasaram parcela ao menos uma vez. E 80% afirmaram que automatizariam o pagamento se a solução fosse segura. A abertura existe. A barreira é confiança e experiência, não rejeição estrutural.

O que levamos desse encontro
Ao final do almoço, o que ficou mais claro para mim foi a coerência entre as três perspectivas apresentadas.
O cenário macroeconômico que o Safra descreveu, com atividade desacelerando, pressão fiscal persistente e juros ainda elevados, coloca eficiência financeira no centro das decisões das empresas. Não como um tema secundário de operações, mas como fator estratégico para saúde do negócio.
Os dados da pesquisa mostram que essa pressão está do outro lado também. O consumidor brasileiro opera com margem pequena, paga multa por fricção e tem abertura real para soluções que simplifiquem sua relação com pagamentos recorrentes. O que falta é estrutura e confiança na experiência.
E é justamente nessa interseção que acreditamos que o próximo capítulo dos pagamentos no Brasil vai ser escrito. Não apenas pela digitalização que já aconteceu, mas pela automação com governança, transparência e respeito ao controle que o consumidor não abre mão.
Nosso agradecimento ao Banco Safra, Joaquim Levy, Eduardo Yujki, à PiniOn e Matheus Magnus e a todos os executivos que participaram da conversa. Foi uma tarde que valeu cada minuto.



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